segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Não é sobre amor, mas ainda sim sobre amar

Identificar em si o que do outro não é seu, e não sentir-se culpado por isso. É realmente frustrante se deparar com situações que nos colocam a prova. Observar as reproduções que estão sendo projetadas é uma maneira de se vê, de longe, e assim se enxergar melhor. 

Não estamos imunes a reproduções de padrões coloniais, isso se expande ainda mais quando nos relacionamos. 

Conceber o desejo do outro como algo sujo, errado, desrespeitoso e usar argumentos que mais assemelham-se ao conceito de “castidade”, ou seja, que estabelece um símbolo de fidelidade cristã para obter domínio, controle e poder, é tão absurdo.

~ aparentemente é fácil na teoria, mas na prática essa questão atravessa camadas traumáticas até ~

E é exatamente nesse ponto que precisamos despertar. Não se entregar a escassez. Reconhecer que tem coisas que irão nos incomodar, aliás, incomodam, portanto, o que é ferida em nós pode machucar outras pessoas e as vezes não sabemos sequer administrar esse sentimento. Localizando uma contradição entre cuidado e superexposição do que é realmente nosso enquanto história, e o que é contexto enquanto histórico. São percepções equivocadas sobre a profundidade das nossas chagas, por assim dizer, que determinam o quão fragilizados estamos. Dá vazão para o que vem e deixar ir o que não nutri. 

Por isso ter atenção: 
Não é sobre o desejo da outra pessoa, é como você lida com as ambivalências emocionais que te acompanham.
Não é sobre não ficar com outras pessoas, é sobre o que você gostaria de descentralizar na relação. 
Não é sobre amor, mas ainda sobre amor, é aprender a não manufaturar esse afeto. 

~ doloroso atirar sal na ferida, por isso, lamber-las antes de pensar em responsabilizar outra pessoa. ~

Vasculhar o que desmantela emocionalmente e ajustar a intensidade das reações, afinal, ainda que a pessoa que você se relacione, deseje, queira, beije, transe, apaixone-se, ame outras pessoas além de você, é necessário garantir que o seu mundo não vai desmoronar. A melhor forma de fazer isso é fortalecer sua mente, não ser cativa a pensamentos de comparação ou qualquer mentira que você conta pra si, afim de justificar comportamentos que foram capturados durante as travessias. Não terceirizar autoestima, confiar sobretudo que o seu “tudo” não é o outro. 

Percebo que o amor tem me deslocado para um âmbito mais paradoxal do que imaginei e com certeza estou em desamparo agora. Sempre soube que o amor era algo incondicional, as vezes até indizível, mas recentemente percebi que o amor pode ser salobo, como as águas de um mar que adentra ou saem do rio: talvez em correntezas desesperadoras, mas na maior parte do tempo, o amor é vagaroso, com texturas e cheiros que se misturam, compondo rotas nas encruzilhadas.

Amar é sobre ter consciência do que é nosso em essência e as variações complexa das incongruências, sem previsões fatalistas, sem redomas atribuídas de falso cuidado, ou de moralismo, esse efeito hegemônico cristão. 

~ Amar é um músculo, é urgente fortalecer-lo se quisermos que ele cresça robusto e saudável. ~


quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

humaninho que sou

penso em escrever no contorno dessas linhas a tensão que o verbo existir me causa. o humaninho idiota como eu que passa o dedo na tela, na insignificância das coisas fúteis que reverberam enxames variados cheios de fúria e tesão, na sua pequenez, lascívias corrompidas, estúpidas, sórdidas, fétidas, grudenta e que a terra comerá. 

penso porque não consigo formular algo que destrua todas as células cancerígenas que o humaninho que sou, na busca impiedosa por saber, desejo e fé, sim a fé, dos livros das crenças do ódio ao diferente, da verdade infundada onde a tristeza habita e as moscas põem seus ovos que geram novas doenças e se alimentam de nós. 

hoje mesmo estava chorando pela morte de um porquinho, predado em sua juventude, mas não dispenso nem suas vísceras em um dia de churrasco. poderia ser mais consciente e resistente, porém questiono: que diferença faz a porra da minha escolha diante dos inúmeros casos de morte de porcos no mundo inteiro? 
ainda sim penso em consumir menos. 

a gente muda ou nada muda ao nosso redor e assim vivo nesse mundinho, sendo egoísta e querendo ter reparação porque sou negra né… foda-se… não quero reparação, quero a extinção humana, a nossa destruição por completo, porque não há na fase da terra, pessoas que sejam boas, não existe! 

as vezes eu digo: tem que levar saúde, cultura, dignidade para todo lugar, pois não dá pra viver em condições precárias, isolados, precisamos precisamos necessitamos necessitamos vamos ocupar ocupar ocupar. 

dá em nada.

esse papo que fico tendo comigo mesma e com alguns sobre essas tragédias monetizadas a toda e qualquer propagandazinha, cartãozinho de crédito, pix e os caralhos é só uma hipocrisia. o ser humaninho que sou em egoísmo. eufemismo, parasita, narcisista, quero ser mais porque sei algo, me deparo que não sou, sinto inveja. 

o porco que morre no abate sou eu! 

na tentativa de melhorar, culpabilizo uma realidade que não vivi. meu pai, minha mãe, minha família, a igreja, a escola, os amigos, as escolhas. uma competição para saber quem tem mais responsabilidade sobre a minha insatisfação emocional espiritual e carnívora. 

imagino não viver… mas toda vez que sinto dor é como se todo esse texto fosse uma mera ilusão, e o sopro da vida me conduzisse a querer correr, movimentar a engrenagem assim como o hamster preso na gaiola.


domingo, 2 de novembro de 2025

Justiça

Como é viver sem existir? 
A título de quem nos fizeram 
acreditar na nuance do gêneses? 

Sobressalta a memória dos confins 
da terra em um mar de larva infinita. 
Nós a deriva do fim! 

Quero desver o passado doloroso
Pois atravessam impunemente os maldosos 
E então se fazer mal pode ser mau
é que coragem para vingar é nosso bem maior!

É necessário atiçar o que está escondido 
Preparar-se para revelação
Enxergar a chaga
Cortar a raiz podre

Ser feliz de verdade!




segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Aprendendo a nadar

Fecho os olhos 
Respiro fundo 
Mergulho 

Fecho os olhos 
Respiro fundo 
Mergulho 

Fecho os olhos 
Respiro fundo 
Mergulho 

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Rugar

Quero viver sem pensar em um abrigo 
nenhum lugar
as vezes eu contorno a mesma rua 
pra tentar chegar aqui

Percebo que me perco 
caminho mesmo tem que se fazer sozinho 
a gente é sozinho 
não tem pra onde correr 

sei desde quando compreendi que tudo 
absolutamente tudo 
vai acabar caindo num buraco profundo onde a imensidão do que a gente sabe até agora não significa nada 

É um cruzo 
possibilidade
é um cruzo

Eu posso querer o invisível?
sentir e ainda não considerar o fato da existência 
com algo que se determina a partir do que se vê e
portanto 
É absurdo não querer o invisível

O que não se toca
O medo das coisas

E o tempo que cava na minha pele marcas
que se perpetuam durante a virada dos anos

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Desejo laço 
apertado, frouxo, isolado 
nem todos, digamos que o mais fraco 
desejo é inabalável 

Lanço-me ao mar!
sua correnteza durante as subidas 
de maré em maré afugentam o medo. 

O desejo continua pleno 
arde manso; engulo inteiro 

imagino lambendo 
contorcendo, melado
afiando os dentes 

Desejo morde. 
salta os olhos 
adverte o sentido ao toque
frágil: a maciez do lábio. 

Então retorno cansado 
desapego do engano 

O desejo é quimera 
durmo e penso que 
posso tocar-lo 

Ninguém me vê 




quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Miudinho

Nas vielas do pensamento 
nenhum alento 
tudo correndo lento
aqui por dentro

Falo o que penso 
Caminho atento 
Não tenho sossego 
As coisas vão se acabar:

O mundo o dinheiro o apego

Permanece o amor ao invisível 
tipo sentimento que povoa 
o que a guerra dizimou 

Não é sobre amor, mas ainda sim sobre amar

Identificar em si o que do outro não é seu, e não sentir-se culpado por isso. É realmente frustrante se deparar com situações que nos coloca...