sexta-feira, 19 de maio de 2017

A ferida aberta
Moscas
Se move alinhando as carnes
podres
novas

Na avenida a noite corta
os carros oscilam entre sinais
fechados
as pessoas mortas dançam
em seus caixões apodrecidos

A desesperança de um povo
Uma existência dentro do ovo
A casca
Casa base revolucionária 
Impiedosos donos 
Imensidões alumiadas no meio da rua,
do lixo, do rio, do córrego, da grana,
nos corredores propícios a suicídio em massa
assédios em massa
homicídios 
torturas 
medo
medo 


medo

Afeto terceirizado

Não quero brinquedinhos para distraí  as minhas ansiedades
muito menos beijos de biquinho feito para satisfazer o meu cio.
Nenhum lugar no meu guarda-roupa contém a tua presença, e
no chão do meu quarto é tudo sujo e tem tintas espalhadas pra 
eu não te procurar nas minhas indecisões.

Nada sei dos teus míseros sentimentos, não me nutre o leite da
esperança, sufoco-me nas paredes sem ouvidos para não saber 
dos teus passos por aí.


quinta-feira, 27 de abril de 2017

Cotidian

Ao meio vento da noite passada
via que debaixo do meu sapato havia merda
dentro do ônibus empestou tudo, ficou aquele
mau cheiro circulando e eu morna olhando em
minha volta

Ao meio vento da noite passada
querendo não saber de nada tive que correr
esqueci muitas coisas no caminho e de nada
me valeu a pressa, ora transito sem saber onde estou
e cá lanço-me ao mar dessa cidade turbulenta

Ao meio vento da noite passada
que mais pareceu pequena
Eu quase não
dormi de preocupada. Acordo hoje e sem
meio entender ela me diz com palavras meigas:
Amor, eu dormi e esqueci de ti dizer.

Ao meio vento da noite passada
meu avô como de costume sempre me pergunta
se dormi em casa. Cedo ele deita e levanta quando
o galo -com aquele grito- rasga as manhãs de tempo
incerto e ameno. As vezes o sol quebra de ponta a outra
franzi-me a testa.

Ao meio vento da noite passada
a resposta é um escarro horrível
ele já não quer comer!
Anda tão quieto feito pássaro sem canto
descabelado diz que hoje amanheceu
com uma coceira na cabeça.

Ao meio vento da noite passada
farto-me de belas coisas que vejo sempre todos os dias
e chego em casa com uma alergia logo penso que mundo
começa a desabar ali. Sento, observo e sinto dentro de mim
uma coisa corroendo minhas entranhas. Então deito e já é a noite
do outro dia num ritornello continuo da frase: O cotidiano que ingerir
as vezes me sacia, outras... Vomito!

sábado, 18 de março de 2017

Pena

Agora o consolo me foi forte
como a pedra que minha cabeça descansou noite
passada
pesada!
Arrepio-me pois já resta tanto sentimento
as minhas pálpebras cansadas, a minha boca
amarga e o café que esfriou sobre a mesa do
lado de fora da casa e os pedaços de mim, estão
todos aqui comigo.
Uma árvore que parece os cabelos de gente
sentada no meio da rua, pedindo água, morrendo
de calor...
Eu mesma que não me iludo com os sorrisos
Mesma que passo com dentes a mostrar para
o mundo e a minha felicidade é feita de pequeninas
borboletas que saem de seus casulos aquecidos para
no relento amar alguém que se conhece pouco.
Eu durmo, e como se não soubesse sonhar
acordo!

Eu que viajo, não durmo

imersa
pesada
desnorteada
bandida
bandida
descabelada
nua
completamente
nua

chororô
molhando
esparramando
a casa exarcada
e nada

loucura
sol
mel
quente
amor
dói

uma bigorna nos meus ombros foi acrescentada como se eu...
fosse errado passar o pano na galera no mei da rua e eu não...
lembro bem de não saber o que era isso direito ai eu olhava...
uma mulher, eu sou uma mulher, toda mulher tem que fazer é, é é

tropeço
fujo
falo
calo
tato
caco
por quê?

na verdade queria sambar
mas eu não sei
se devo sambar

sou jovem
bossa
fossa
cossa

e de repente a chuva cai direitin na minha testa.




Sono

Pode ser que vá e corre
agachar debaixo da árvore
e beber a água do rio que
passa em correntezas demais

sentar-se para observar os
peixes que saltam enquanto as
garças estão lá sobrevoando
rapidamente para abocanha-los

gostaria de entrar e ficar mais
um pouco. Andar por toda casa
sentir todo mofo mesmo que meu
nariz não aguente mais de tanto
espirrar

quero deitar ao seu lado outra vez
te ver dormir é dormir melhor
o teu cheiro forte é a chuva quando
vem e bate no mormaço quente e
se espalha por toda cidade

quando tu diz que vem eu arrumo
o quarto, eu limpo o ventilador e
troco os lenções, mas quando vens
de surpresa tu reclama de tudo

então eu paro na tua frente e com
um beijo silencioso te peço calma
e tu não para e fico aflita e tu não fala
a gente briga

Vejo os pássaros que são como nós
agitadas e ágeis, e os peixes de água doce
como nós flexíveis e completas

antes de dormir penso que estou com
você e estou! Durmo mais ligeiro...

segunda-feira, 13 de março de 2017



Submeto esses versos para falar desses tempos

cujo argumento maior se encontra no trajeto torturante

até aqui, ainda fresco e vivo.

As armas perigosas entregues nas mãos daqueles que

destroem com vigor as risadas.

Aquilo que come as cidades, uma praga, uma mentira.

Mal consigo pensar, queria mesmo me atirar da pedra

mais alta de Redenção ao contrário me prenderiam para

roer minha língua e fazer de mim um capacho, um limpador

de bosta de seus cavalhos cheios de brilho, crinas elegantes

e superfaturadas.

Devia mesmo me entregar a sangrenta tabela de seus assassinatos

covardes, passar no jornal na hora do almoço, enquanto bebem

o meu sangue e os restos do meu corpo são jogados aos seus

cachorrinhos novos.

Eu sou é ruim!

Ainda que pelos argumentos o TEMER não exista, ainda

que pelos beijos tenha eu que conter os lábios e daqui já

consigo ouvir o tintilar dos copos desse veneno torpe preste

a ser bebido por tantas de nós em pequenos cubos, eu sumo e assumo que

não pelas minhas mãos os corpos serão submetidos ao erro,

ao engano e ao dinheiro serão comprados para amarrar os seus

próprios pés dentro de uma bacia cheia de caranguejos agoniados.

Em um tempo como este que nos é dada a oratória vil para dizer

que os nossos dias são contados e monitorados por um olho universal

que rege até o cu mais cagado e sujo dessa terra e das terras que nos

roubaram enquanto estávamos na beira do nascimento, um parto

doloroso e raro onde nossa mãe morrera asfixiada pelo pai comprado

pelo estado.





Preso

O cão em prantos ao lado  a solidão e a tristeza da corrente  em seu pescoço; tentativa de fuga ou um carinho qualquer…  Pela combobó observ...