sábado, 11 de abril de 2020

Ontem era noite e tarde


-Estamos nos debatendo 
sobre essa larga rotina atemporal.
Com palavras que pesam mais 
que uma tonelada... 

-Será mesmo que é pra ser assim? 

-Parece que há um vulcão adormecido 
dentro da gente ameaçando explodir.

1/4

Estão passando os dias como alimento comido.
As papilas gustativas estão acostumadas com 
o mesmo sabor. 
As manhãs me parecem seguras. 
O primeiro canto do pássaro. 
Desde 3h o galo canta. 
Fico imaginando como dorme 
um pintinho...

Amedrontada, a noite me absorve.
Nem o sono, nenhum sonho se justifica agora. 
A casa tem um cheiro misturado de lembrança 
e perfume barato; já não os aguento mais! 
Estou engolindo o pranto e soltando vaias ao tempo. 

Passo a mão pelo corpo e só sinto vestígios de saudade.
A busca é inútil, porque noite passada fiquei confusa e 
sequer consegui suportar o peso desta casa vazia. 
Saltei na rua. 
Por que é tão difícil olhar no espelho o mesmo reflexo
tantas vezes refletido?

A solidão me atende 
É uma ligação breve e sombria...
O tempo, este fresco, só ri. 
 

quarta-feira, 25 de março de 2020

Encostar

Um rasgo entre as nuvens
A luz alaranjada, marrom escura
Amarela
No beijo 

Nas mãos o cheiro doce e molhado.
Olhar atencioso e terno.
Costumo adormecer na maciez
dos braços.

As maçãs não apodrecem de um dia
para outro, sendo assim as mordo com
longínquos intervalos.

Aqui, as paredes do quarto estão
se desprendendo e sobre o chão, camufladas.
Eu Apoio meu corpo contra a porta.
Suponho não me divertir com dedos
dentro da calça.



quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Mãos negras

Um vestido florido lindo
Nas costas uma mochila quase velha
Segurava um copo descartável de 500ml

O pedido
Uns trocados
As penas magras
Boca banguela

Deus abençoa mesmo assim!
Nas mãos transitava um cajado
Como quem fosse bater
Era raiva?
Como quem fosse abrir um caminho

Se apoiava quase fraca

A firmeza das mãos e do olhar me rasgava...
Na próxima parada fora elogiada e nada lhe davam...
Seguia buscando, dizendo: conseguir o da noite...

O corpo lânguido
Pêndulo
Trêmulo
Lento.

A imagem
repetida na memória
Hiato
Tristeza repenti na
Rua desguarnecida.
Estou esgotada!

É quase audível o tintilar
Mas no copo
No corpo a vagar, nada.
Velha negra
Não tem missa

Peço a deusa ou deus, universo ou sei lá
Que algum lugar, nalgum dia, meus olhos
Parem de suar
e a senhora alcance o pedido:
conseguir o da noite...





terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Tardia

Nas ruas... O choro...
Calçadas e papelões
Roupa de Natal? 
Papai Noel é um patife
vestido de ódio e pena.

Quando pequena, admirava os cartões 
natalinos que minha mãe recebia de seus patrões tolos.
Ficava a imaginar aquele lugar gelado, as letras de felicidades... 
As vezes ela ganhava uma cesta com doces e vinhos.

Há secreção no meu nariz...
Sangro ao percorrer o caminho.
Até chegar aqui, meu coração 
despedaçou-se. 
E chorando 
Vi uma estrela cadente
Num rasgo cortante 
No céu que nem é meu... 
O pedido que fiz é o de sempre...
Por vezes, o visualizo no seu sorriso...

Um pedinte e dois reais de gratidão.
Meu coração está quebrantado, contrito.
Meus olhos cerrados.
Minha bicicleta pesada. 
A rua sinalizada.

Eu sempre estou só com meus pedidos. 





Amanhã tem cuscuz

Elevo meu pensamento para um lugar de conforto.
Trago pra perto amuletos e sons.
Ouço meu coração palpitar em leves batidas.
No choramingar noturno lembro de agradecer.
Permaneço calada: há um grilo que não para.

Logo será de manhã e o frescor balsâmico
das flores do Jardim de minha mãe correrá pela casa. 
O rádio de meu avô sendo ligado
e em cantigas inventadas ele
conduz seu corpo rígido e lento até o banheiro.

A massa molhada descansando.
Estou cansada.
Cedinho minha irmã acorda
e coloca pra cozer o alimento.
Estou cansada.
Chorosa e faminta agora. 

Conceito de casa

     Aqui era uma lagoa rodeada de lagoas. Um lugar fértil de bichos e mulheres!

120 metros de fundura.
Mistura de cimento
Um amontoado de pedras pequenas...
Ferros.
Pedras maiores.

      Como atravessar pedras maiores?

Erguer paredes.
Sair do chão.
O ponto de incômodo entre a nuca e o olhos.
Uma trave: dentro da visão.

      Subir assobiando na leva dos tijolos.
                     1 pedreiro
                     1 servente

      O chão é o mais importante, não esqueçam!
Se aí nascer pé de mamão, pode fazer uma plantação de qualquer coisa.
Mamão é uma das frutas mais férteis que já vi.
      Antigamente eu comia barro. A cor avermelhada, amarelo, branco, quente,
me abria o apetite instantaneamente e veja, não era sobre introduzir algo na boca
Era em suma, o cheiro que me fazia fechar os olhos miúdos: Uma memória!

      Conta minha mãe que durante o período de gravidez ela sentia uns desejos estranhos
e um deles era comer barro. Será essa minha lembrança de casa, nas entranhas de uma mulher
saboreando algo com tanto prazer?




Preso

O cão em prantos ao lado  a solidão e a tristeza da corrente  em seu pescoço; tentativa de fuga ou um carinho qualquer…  Pela combobó observ...