sábado, 27 de agosto de 2016

Ando sem saber de mim

Beiro nessas calçadas vis
um corpo meu oblíquo,
reprimindo olhar para esta
lua entre fios. Minha face
outrora leve e feliz, se estraçalha
a medida que sinto em mim o rastro
da languida aurora que virá...

Meu amor é vidro quebrado furando
os pés de quem não atenta para baixo
com cuidado
- eu machuco sem piedade.

Há insetos tomando de conta do
resto de mel que adoçava o fluido do
copo, e dentro de mim é um oco sem
fim...

Queria não sentar e chorar nos ombros
sujos dos ônibus desconhecendo assim
o motivo de tal lástima: perigosa e ingênua.
- preciso aprender a gostar mais de mim...
pois lá fora vejo minha sorte sendo levada
pelas mãos de quem não me quer.

Alguém pode me afagar? Este momento retendo
o ar de meus pulmões e me fazendo gelar os lábios,
meu canino sequer tem forças para morder a próxima
vítima desse coração frígido.

Será que ao menos posso enxergar além do que
esses olhos cansados quer?

Sinto-me muita...

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Cachorros

Quando sinto muita fome vomito o que tenho dentro, talvez
uns restos de ontem que ainda não foram devorados pela criação
de lombrigas que supostamente tenho no estômago, e torno a olhar
meu cotidiano medíocre e perdido na maresia que agora me deixa
tonta.
Eu como a minha fome! Mas
Sinto vontades imensas de fugir dela,
Desaparecer como quem não sente nada.
Assim parecem ser os cães que ingerem de novo seus vômitos
Numa ânsia, desmaião e morrem atropelados por um
coração abandonado há exatos meses de uma fome carnal e sem
satisfações.

No seguimento de suas vidas, eles foram muitos felizes...

Os cães abandonados encontram lar em um coração enrijecido, porém mole
que fora perdoado, mas que não perdoa ninguém, a não ser quem
abandonou o cão:
Foi a falta de dinheiro pra manter a ração diária?
Ausência de carinho e tempo de cuidado?
Chagas tomaram conta de seu corpo jovem e por isso não
teve forças suficientes para... (?)

O cão também precisa perdoar quem o abandonou e parar de
comer o vômito da fome, pois encontrou no coração de seu dono,
um lugar quente quando for pra ser quente e frio quando for frio, e
comida e banhos em águas que não maltratam seus pelos.



quinta-feira, 4 de agosto de 2016

Frígida

O corpo cai sobre o frio da minha imensidão.

Se me ver calada nos cantos, é porque meu 
canto se perdeu nos pensamentos tantos...

Não quero secar e morrer perpetuando a flor 
que não quis ser, sem saber o quanto tenho a florescer
ou se minhas raízes fincarão em solos férteis...

Oh, dentro de mim pedaços de ser inacabado

Oh, nesse lugar vejo o dia nascer raso e passar
pelos olhos sem quase existir.


Afogamento

Meu coração se lançou ao mar de tão teimoso e aflito. 
Queria segurar suas mãos e não afundar vigorosamente
como os velhos bêbados em queda num buraco cheio de baba,
como o sopro de vida que vai, rasgando meus pulmões e 
desesperando-me sofrega... 

Porque o oxigênio durou até eu encostar meu corpo frígido
numa pedra pontiaguda e esvaiu em bolhas escurecendo
minha visão. 

Eis que vejo agora como num sonho, 
os teus cabelos, a tua face pintada, o teu olho. 
É ver de baixo o infinito mar a refletir
o sol e formar dentro pequenos cristais catalizadores.

Emergi e aqui pareço renascer e ser outra como nunca fui,
e a areia que entrou na minha concha é perola pra enfeitar 
o seu pescoço e ser teu patuá... 

E o sonho daquela mulher
azul pintada de amarelo-sol não ia com o passar dos dias. 
Acordava e dormia, e ela lá, sem saber de mim... 
E eu aqui sem saber sonhar...

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O mar não tem cabelos

Um dia eu caminhava na beira d'água e
e noutro já estava neste mar.
Suas ondas mansas sorriam e tocavam
minhas mãos, por vezes beijava e outras
lambia...
O vento balançava meus cabelos
como o balançar de mãe na rede.

Então,
a areia molhada em cima e embaixo dos pés
excitava-me voluptuosamente e eis que rendo 
meu corpo diante do mar:que
suga-me as forças, ofusca minha visão, 
sufoca o meu grito...
Será que estou me afogando mesmo sabendo nadar?
Já sem muito saber o mesmo mar me leva em ondas até
eu consegui agarrar nas pedras no entorno das águas para tentar
salvar os rebentos de minha fé.




Onírico,

Jorrava verde e vermelho que escorria pela boca, mostrava os dentes afiados e os olhos virados, brancos.
O vento fazia ecoar seu grunhido, uma espécie de canto talvez, no areal. Penoso!
Parecia chorar e as lágrimas não caiam, o choramingar não cessava com a alegria dos que celebravam ao redor.
Ela tapou os ouvidos para não se ouvir e calou-se por dentro. Observava como se não compunha a cena: era confusa a peleja daquele ser, ora humana e deusa, ora o diabo, a peste, o bicho de pé.
Dançava e seus cabelos eram seu vestido, parece despir-se entorpecida
- Vejam!
E uma cólera surgia dentro de mim como se eu fosse dona daquilo que despertava em vício e fissuras carnais a vista daquela gente toda -era assustadora e deliciosa!
Mas, a raiva roía em ruínas derretidas até sujar minhas mãos de sangue, areia e água. Quase cheguei a esfregar na sua pele alva o meu corpo que caia e deixava um rastro de morte por onde ia.
Então me aprumei em vão no canto do templo. Ela aproximou-se, percebi o gesticular das mandíbulas como se fosse me engoli... Foi quando em seguida saltou pra rente minha face e virou um dos olhos que continha um cisco, um ponto cego e gritou um grito ensurdecedor visceral, dividido em 4 vozes de tessituras e timbres diferentes
- um cânone saindo das entranhas e atingindo-me aorta.
Nesse momento vi que meu corpo estava emergindo no mais profundo, escuro e imenso mar. Não temi...
- Acordei!

terça-feira, 12 de julho de 2016

A minha boca fica seca    Um jogo de atiramento
que madrugada fria    Ninguém compreenderia
fica pendurada no olho     Porque não faço questão
a lágrima não desce    Se teço na linha da minha vida o
tenho vontade de     Esquecer esses pedaços de mim
lembrar Inteira   Confusa!     Confusa!     Confusa!
do dia     Que já fui     Confusa!      Confusa!
ontem         Esquecida         Confusa!
uma agonia a solidão     Outra vez vestida de fumaça
branda depois       Furtava a cor de tudo
faz-se necessária       Vou fugir!
Para eu ver quem sou       Com meu olho escuro.


Preso

O cão em prantos ao lado  a solidão e a tristeza da corrente  em seu pescoço; tentativa de fuga ou um carinho qualquer…  Pela combobó observ...